Operações

Operações em Moçambique

A Recuperação de Quionga em Abril de 1916

O governo português deu ordem para esta força recuperar Quionga e ocupar uma parte da colónia alemã até à região de Rufigi, missão naturalmente muito ambiciosa e mesmo irrealista, o que levou o governador a solicitar mais reforços militares. Esta intenção de ocupar território alemão revelava desconhecimento das condições locais e desvalorizava o valor militar das tropas coloniais alemãs, do tenente-coronel Lettow Vorbeck, cujo valor operacional os portugueses conheceram uns meses depois. De Lisboa foi dada a ordem para se fazer de imediato a ocupação de Quionga, com a promessa de um reforço urgente de tropas e assim foi constituído um destacamento com cerca de 400 militares, comandado pelo major Quinhones Portugal da Silveira, formado pelas seguintes unidades:

  • - uma companhia do BI 21 (Penamacor) e a 20.ª companhia de Infantaria indígena;
  • - uma bateria de Artilharia e uma bateria de metralhadoras;
  • - um pelotão de Cavalaria;
  • - destacamento de sapadores e telegrafistas;
  • - serviço de Saúde;
  • - auxiliares e carregadores.

Esta força deslocou-se de navio desde Porto Amélia até Palma e dali percorreu cerca de 12 km até alcançar o objetivo a 10 de abril. Não encontrou resistência porque os alemães tinham abandonado aquela posição, passando para a margem norte do rio Rovuma. Para garantir a posse do triângulo de Quionga era agora necessário guarnecer diversos postos na margem do Rovuma (Nhica, Namoto, Namaca, Namiranga, Nachinamoca), estabelecendo uma frente de 50 km até ao mar.

 

A primeira tentativa de passar o Rovuma em maio 1916

Quando os portugueses recuperam Quionga, os alemães estavam empenhados a norte com os britânicos, que realizavam ações reforçados com unidades da União Sul Africana. Mas, logo depois, a 23 de abril (13 dias depois da entrada dos portugueses em Quionga) os alemães atacaram o posto de Namoto, a 12 de maio atacaram Nhica e Mitomoni e no dia 15 o posto de Chivende. O governador tencionava passar à ofensiva, atravessar o rio Rovuma e invadir território alemão, tendo determinado que as unidades da 2.ª Expedição fossem reforçadas com unidades da colónia: duas companhias da Guarda Republicana de Lourenço Marques (uma de militares europeus e outra de indígenas), uma Companhia de Infantaria Indígena e uma bateria de Artilharia.

  • Passar Rovuna
  • Mas mesmo antes da chegada destes reforços vindos de Lourenço Marques, foi decidida e planeada a operação para atravessar o rio Rovuma. Foram assim organizadas duas colunas para atravessar o rio e atacar os postos alemães na margem norte, junto à foz do Rovuma, a 27 de maio. Antes do avanço da Infantaria, na véspera, a Artilharia e os dois navios da Marinha (o cruzador Adamastor e a canhoeira Chaimite) fizeram tiro sobre a margem norte do rio, mas do lado alemão não houve qualquer resposta. As duas colunas deveriam atacar em simultâneo os seus objetivos na margem norte do rio, distanciadas 2 km uma da outra.

A coluna da direita (do lado da foz) partiu da ilhota de Namaca e era constituída pela companhia de Infantaria n.º 21, por uma companhia indígena (da empresa Niassa), um pelotão da 20.ª Companhia indígena, uma bateria de metralhadoras e pela bateria de Artilharia de peças antigas 7 cm m/1882. A coluna da esquerda partiu de Namiranga com outra companhia de Infantaria n.º 21, 2 pelotões da 20.ª Companhia indígena e uma bateria de Artilharia. O objetivo comum das duas colunas era tomar o posto da Fábrica, na margem norte do Rovuma e o ataque simultâneo das duas colunas começou às 10h e decorreu até as 15h30m.

A coluna da esquerda, apoiada nas ilhotas, conseguiu responder ao fogo dos alemães e progredir até 150 m do local de desembarque, mas a coluna da direita, que passava embarcada em baleeiras, foi violentamente atacada quando estava a cerca de 200 m da margem norte do rio, sofreu muitas baixas e não conseguiu avançar. Estas unidades iam embarcadas nas baleeiras do Adamastor, com cerca de 20 a 25 homens em cada embarcação e foram alvos fáceis para as metralhadoras alemãs, causando muitas baixas. A coluna do lado direito sofreu 33 mortos (3 oficiais e 30 sargentos/praças), 28 feridos e 8 prisioneiros; a coluna à esquerda teve apenas uma baixa.

Do lado alemão o potencial era menor, mas estavam abrigados nas suas posições 125 militares (12 europeus e 113 negros askaris) com duas metralhadoras pesadas e 59 nativos auxiliares. Perante a situação e as baixas sofridas pela coluna da direita, foi dada ordem de retirar e a operação terminou sem sucesso. A força portuguesa mantinha a posse de Quionga, mas a expedição mergulhou numa crise profunda, perdendo toda a capacidade militar, pois nos meses seguintes os militares portugueses sofreram muitas baixas por doença (malária e disenteria) e sentiram grandes dificuldades logísticas e operacionais nas pequenas guarnições dos postos isolados ao longo do Rovuma, sofrendo ataques dos alemães.

 

A Ofensiva Portuguesa em território Alemão ( setembro-novembro de 1916)

Entre setembro e novembro de 1916 teve lugar a ofensiva portuguesa com o objetivo de penetrar em território alemão e tomar Nevala, Massassi e Liwale (a 150 km da fronteira). Foram organizadas diversas colunas e a travessia do rio Rovuma foi planeada para se realizar a 19 de setembro.

A coluna Nhiva (coluna negra) passou o rio no vau Nhica (a 40 km da foz do Rovuma) e tinha a missão de realizar uma manobra de diversão a 18 de setembro, antes do ataque da força principal no dia seguinte. Era constituída por 3 companhias de Infantaria (duas companhias indígenas e uma de Infantaria 23), uma bateria de metralhadoras (4 metralhadoras), duas bocas de fogo da 1.ª Bateria de montanha e um pelotão de Infantaria montada. Esta força atravessou o rio, depois realizou um deslocamento de 12 km, durante 9 horas; ocupou Mayembe no dia 19 e no dia seguinte o posto alemão de Tchidia; continuou depois para Migomba, na margem oposta a Namoto, para onde as restantes unidades também se deveriam dirigir.

A força principal, organizada em três colunas, incluía 120 oficiais e 4.060 sargentos e praças. Passou o rio junto à foz pelos vaus de Namoto e Nacoa, contava com o apoio de 10 metralhadoras, 12 peças de artilharia (três baterias) e uma peça de Artilharia de costa (10, 5 cm Krupp), que veio de Lourenço Marques e foi instalada em Namoto. O navio Cruzador Adamastor também colaborou na preparação de Artilharia.

Fig.11-II. Metralhadora pesada Maxim em Moçambique
In Ilustração portuguesa, n.º 602, 3 de setembro de 1917

As três colunas que constituíam a força principal estavam assim organizadas:

  • - a coluna da esquerda tinha o batalhão de Infantaria n.º 28, a 22.ª Companhia indígena e uma bateria de metralhadoras;
  • - a coluna do centro tinha duas companhias de Infantaria n.º 23, a companhia indígena da Guarda Republicana e uma secção de metralhadora;
  • - a coluna da direita tinha o batalhão de Infantaria n.º 24, a 23.ª companhia indígena e uma bateria de metralhadoras.

Depois da coluna negra se posicionar na outra margem para proteger o flanco direito da força principal, as baterias de Artilharia posicionadas em Namoto fizeram uma preparação de fogos e a força principal (3 colunas) atravessou o rio sem encontrar resistência, indo bivacar em Migomba. Após a passagem do Rovuma e a entrada das forças portuguesas em território alemão, os planos portugueses previam o avanço até Nevala, Massassi e Liwale.

De Lisboa vinham ordens para a força continuar a avançar para norte para se juntar aos britânicos, apesar do gen. Ferreira Gil ter a noção das dificuldades de continuar a subir o planalto maconde, entre vegetação densa e encostas difíceis, numa aventura que foi chamada de “epopeia maldita” e que teve início a 18 de outubro de 1916, após a reunião de unidades e de algum apoio logístico em Sicumbirico (a base de apoio de onde saíram as forças para atacar Nevala).

Nos primeiros dias de outubro foram realizados alguns reconhecimentos a partir de Sicumbirico para identificar os itinerários para subir o planalto maconde. Numa destas missões, um destacamento da coluna negra comandado pelo cap. Liberato Pinto sofreu uma violenta emboscada em Mahuta, que provocou 33 mortos e 14 feridos, quase todos da 21.ª Companhia Indígena comandada pelo capitão Francisco Curado, um dos oficiais que mais se destacou em Moçambique. Entretanto, na base de Sicumbirico as unidades foram reorganizadas. De Migomba chegou um reforço comandado pelo major José Pires, com um pelotão de Infantaria montado, Artilharia e 4 metralhadoras. De Palma para Nhica foi enviada uma nova coluna comandada pelo major Gama Lobo que, após passar o rio a vau em Nhica, se juntou às tropas do major Pires a 16 de outubro, para formarem a coluna Massasi.

Foram, assim, organizados dois destacamentos com o objetivo de atacar Nevala.

A coluna de Massassi, comandada pelo major José Pires era constituída por 5 companhias indígenas, 2 companhias de Infantaria n.º 28, duas baterias de metralhadoras, um pelotão de Infantaria montado e 4 bocas de fogo de Artilharia, além dos trens de apoio logístico. A coluna em deslocamento subdividia-se em duas forças separadas: uma sob o comando do major Gama Lobo e outra sob o comando do capitão Bivar, da Guarda Republicana de Lourenço Marques. Segundo os planos, esta coluna deveria seguir de Sicumbirico para Nevala passando por Mahuta; deveria atacar Nevala pelo lado Leste, mas com receio da posição de Mahuta, onde se tinha dado anteriormente a violenta emboscada, optou por seguir um caminho diferente, seguindo junto á margem do rio, demorando quase uma semana até se aproximar de Nevala.

A coluna do major Azambuja Martins marchou de Mocímboa do Rovuma a 21 de outubro, teve um pequeno combate com alemães em Lucalala, mas subiu até Mahuta e dali seguiu para Nevala, para atacar esta posição pelo lado Oeste. Tinha a 17.ª Companhia Indígena, mais um pelotão indígena, um esquadrão de Cavalaria e uma bateria de 4 metralhadoras. Como a coluna Massasi se atrasou, esta força ficou à sua espera durante 3 dias, nas proximidades de Nevala.

Fig.12-II. Ofensiva portuguesa e retirada em setembro-novembro de 1916
Desenho do autor

 

O forte de Nevala foi tomado a 26 de outubro de 1916, após uma troca de tiros de artilharia e da retirada dos alemães de Nevala para a posição de Massassi. A conquista de Nevala sem um combate intenso, como se esperava, foi um momento de glória para os portugueses, que recuperavam o espírito de um exército desmoralizado e muito abalado pelo estado de saúde do seu pessoal; durante alguns dias a atitude dos alemães dava a ideia de que a guerra estava a terminar. Porém, um mês depois a situação mudaria radicalmente para os portugueses, depois de Von Lettow ter reforçado a zona sul com mais de 1000 militares com a missão de expulsar os portugueses e de pacificar os povos macondes revoltados.

No mês após a tomada de Nevala, mesmo sem receber os reforços pedidos e perante a pressão política de Lisboa, o gen. Ferreira Gil decide continuar a arriscada missão ofensiva dentro do território inimigo e nomeia um novo comandante para o destacamento avançado português, o major de Artilharia Leopoldo da Silva, corajoso e líder inspirador, que surge com energia, após se ter distinguido como comandante da Artilharia desta campanha ofensiva na colónia alemã. O major Leopoldo da Silva assumia assim o comando da operação para atacar a posição alemã em Massassi, a 70 km a noroeste de Nevala. No dia 28 de outubro saiu de Nevala uma força de reconhecimento com 2 companhias indígenas, um pelotão de Infantaria n.º 23, um pelotão de Cavalaria e uma bateria de metralhadoras, com a missão de reconhecer o itinerário para Massassi; sofreu uma emboscada, que ficou conhecida como o combate de Lulinde e retirou para Nevala.

A 2 de novembro, as restantes unidades do batalhão de Infantaria n.º 28 ,que tinham ficado em Palma, deslocaram-se para Nevala, tendo sido transportados nas viaturas Fiat até ao alto de Nangade da Serra, seguindo a pé até Sicumbiriro e depois para Nevala, onde chegaram a 7 de novembro. Na madrugada do dia 8 de novembro saiu de Nevala a força comandada pelo major Leopoldo da Silva, constituída por 769 homens (23 oficiais e 746 sargentos e praças); a coluna foi interceptada pelos alemães na estrada de Kivambo, num combate que provocou ferimentos mortais ao major Leopoldo Jorge da Silva. Neste combate, a unidade portuguesa revelou disciplina e uma forma de atuação eficaz, como raramente se viu por parte dos portugueses, com a organização de uma linha defensiva (com Infantaria e metralhadoras) que resistiu à emboscada dos alemães, de tal modo que foi por causa da falta de munições que o major Leopoldo da Silva se empenhou com alguns soldados no abastecimento de munições à linha da frente, tendo sido atingido com um tiro na barriga e outro no ombro.

Apesar da morte do comandante da força, os portugueses combateram com sucesso os alemães em Kiwambo. O combate durou 6 horas e chegou-se a encher os refrigeradores das metralhadoras com a urina dos soldados, por não terem água. Os alemães retiram para Massasi e a força portuguesa manteve-se na zona, até retirar para Nevala a 19 de novembro, dez dias depois de terem saído para aquela ofensiva. No dia 22, os alemães começaram a atacar os portugueses em Nevala onde uma brilhante resistência aguenta a posição durante o cerco de 7 dias, até se esgotarem as munições (Combate de Nevala), escapando os portugueses ao cerco alemão através de uma retirada muito difícil, mas bem conseguida. As unidades portuguesas que saíram de Mahuta para socorrer os sitiados em Nevala foram atacadas, não conseguindo chegar a Nevala. A guarnição no forte de Nevala realizou um plano de retirada rigorosamente planeado pelo capitão Curado, que conseguiu evitar um desastre maior, apesar de terem deixado para trás 6000 munições de metralhadora, quatro peças de artilharia, sete metralhadoras Maxim, 40 carroças e 50 bois.

Os alemães perseguiam os portugueses que retiravam por Nangade para Palma onde estava o quartel-general. Assim terminava a invasão portuguesa ao território inimigo, 3 meses depois da arriscada travessia do Rovuma para norte. Registaram-se muitas baixas em pessoal, solípedes e armamento e receava-se o ataque alemão a Palma, o que não se chegou a verificar. Três meses depois de terem saído para aquela arriscada campanha a norte do Rovuma, as unidades iam chegando a Palma num estado miserável, com as fardas e os equipamentos arruinados, com os militares esfomeados e doentes.

No final de 1916 os britânicos admitem que estaria iminente uma invasão alemã sobre o território português e planeiam o desembarque de tropas britânicas na costa norte de Moçambique para apoiarem os portugueses contra uma eventual invasão alemã. No ano seguinte, em março de 1917, já sob a liderança militar de Álvaro de Castro como novo comandante militar e governador, o quartel-general português foi transferido para Mocimboa da Praia, 80 km a sul de Palma e a 100 km do rio Rovuma, numa zona que parecia mais adequada mas que se revelou terrível para a saúde dos portugueses por causa dos mosquitos que causaram febres e a morte a centenas de militares, que morreram antes de participar em qualquer operação militar. Tal sucedeu com o batalhão de Infantaria n.º 31 (Porto) mobilizado na 4.ª Expedição, que registou 445 mortos sem entrar em combate. Perante esta situação o governador decidiu transferir o comando para Chomba, a cerca de 140 km do litoral (de Mocimboa da Praia).

Em 1917 os alemães começaram a penetrar em Moçambique, antecipando a grande manobra ofensiva que realizaram em 1918 sob o comando de Von Lettow Vorbeck, usando novas táticas de infantaria ligeira, com base no escalão companhia (ações irregulares tipo guerrilha) com as tropas nativas (askaris) muito aguerridas. Entre janeiro e julho de 1917 realizaram operações ao longo da fronteira, desde o lago Niassa até ao meio da fronteira, ocupando muitos postos portugueses. Fizeram uma penetração mais profunda até Montepuez a 10 julho, sem sucesso, e depois a campanha abrandou no período em que foi aberta uma estrada entre Mocimboa da Praia e Chomba e em que foram realizados trabalhos para instalar o quartel-general em Chomba (outubro de 1917).

 

A invasão alemã (Novembro 1917 a Setembro de 1918)

Em 1917 perante a ameaça da invasão alemã, era necessário guarnecer melhor a fronteira do Rovuma.

Em setembro de 1917 o dispositivo das forças em Moçambique era o seguinte:

 

Na linha Mocímboa da Praia – Chomba – Mocimboa do Rovuma:
 Em Mocímboa da Praia:
  - Batalhão de Infantaria n.º 30
  - Batalhão de Infantaria n.º 31
  - 4.ª Companhia indígena
  - Duas baterias de metralhadoras (europeias)
  - Duas baterias de metralhadoras (indigenas)
  - Um esquadrão de Cavalaria
  - Um pelotão de Engenharia
 Nangalala:
  - Companhia de Infantaria 31
 Maunda:
   - Bateria de metralhadoras (europeia)
 Chomba:
   - Companhia indígena
   - Bateria de Artilharia
   - Pelotão (europeu)
 Mocimboa do Rovuma:
   - 39.ª Companhia indígena
   - Pelotão de Infantaria 21
   - 2 bocas de fogo Artilharia (bronze)

Em setembro de 1917 o batalhão de Infantaria n.º 29 estava no sul da colónia, em Goba, na fronteira com a África do Sul (onde esteve cerca de 7 meses). Nesta fase, não estava empenhado na defesa do Rovuma. Foi depois enviado para Mocimboa do Rovuma no final de outubro e, já depois da invasão alemã no território, foi para Chomba.

Zona de vigilância do rio entre Palma e Nangadi :
31 oficiais, 36 sargentos e 852 praças
Postos de Namoto, Quionga, Namiranga, Nachinamoca. Kivembo, Madai, Pundanhar, Matchemba e Nangadi.

 

Coluna de Nanguar (reuniu a coluna do Lago Niassa e a de Montepuez):
36 oficiais, 63 sargentos e praças europeus e 1167 praças indígenas.
Em Metarica e depois guarneceu Negomano, Serra Mecula, Nanguar, Oissulo e Macolos
- 5 Companhias indígenas
- Bateria de metralhadoras (indígena) – 6 metralhadoras
- Secção de Artilharia m/82

Neste dispositivo, a frente oeste entre o Lago Niassa e Negomano com cerca de 450 km, era a que estava menos guarnecida, tinha as unidades mais isoladas e constituídas basicamente por tropas indígenas. Por ali tinham entrado os alemães no 1.º semestre de 1917, neutralizando facilmente as pequenas guarnições indígenas da Companhia do Niassa. Mesmo depois de julho de 1917, quando a coluna do lago Niassa foi organizada e colocada em operações, havia a preocupação de que estava muito afastada, não podendo contar com reforços se tivesse que enfrentar os alemães, assim como também não contava com apoio logístico. Por esta razão as autoridades resolveram criar mais unidades indígenas, tendo em consideração que eram as mais adequadas para esta missão. Os relatos que conhecemos sobre o deslocamento da coluna do Lago para o seu setor, sob o comando do capitão João Henrique de Melo, revelam bem as condições muito difíceis em que os cerca de 1000 militares e 800 carregadores se deslocaram desde o Niassa (junho) até Metarica e depois Nanguar (setembro), passando por Milange (junho), Mecanhelas (julho), Amaramba (julho/agosto) e Maúa em agosto, (onde foram atacados por nativos liderados pelo régulo aliado dos alemães), com imenso calor, sem alimentação e sob diversas ameaças da natureza, entre elas os leões e as formigas.

A coluna do Lago percorreu quase 1000 km durante 3 meses pelo itinerário mais complicado, em vez de ter seguido um itinerário mais fácil e mais curto (apenas 300 km), se tivesse partido de Mocimboa da Praia até Nanguar. A coluna do Lago juntou-se à coluna de Montepuez (do cap. Francisco Curado), sendo criado o destacamento de Nanguar, sob o comando do major Feio Quaresma, constituído por 3069 homens (36 oficiais, 63 sargentos e praças europeus, 1167 praças indígenas e 1500 carregadores) representando uma força de combate de 1000 infantes e 6 metralhadoras.

Postos militares no norte de Moçambique em setembro de 1917
Desenho do autor

 

Estava latente a ameaça da invasão alemã, mas o comando português, sem dispor de informações, hesitava nas decisões de ajustar o dispositivo e de realizar operações mais ou menos ofensivas, desorientado entre as indicações que recebia dos britânicos e a sua vontade própria. Enquanto ia reforçando alguns postos, em prejuízo de outros, os alemães davam início à ofensiva sobre a fronteira portuguesa em novembro de 1917.

 

Posições defensivas em Namoto, norte de Moçambique

O comandante Sousa Rosa, na sua ambição política, chega a pensar numa nova ação ofensiva sobre Nevala em outubro de 1917, obrigando os britânicos, através da diplomacia, a impedir essa manobra e a sugerirem que os portugueses ficassem em posições defensivas no Rovuma Esta seria a única forma de enfrentar os alemães. Sugeria mesmo o envio de tropas britânicas para reforçar os portugueses. O choque entre o comando militar português e os britânicos marcou as relações entre os dois aliados até ao final da Guerra em Moçambique. Sousa Rosa, tal como muitos oficiais portugueses, achava que a presença dos britânicos no seio das unidades portuguesas (ou no território) reduzia a importância das forças portuguesas e assim preferiam viver numa certa fantasia, afastados e desconfiados de um poder militar mais sólido e eficaz.

 

A invasão alemã em Moçambique

Depois dos sucessos britânicos e dos belgas, que conquistam Mahenge em outubro de 1917, os alemães vinham retirando para sul em direção à fronteira portuguesa no Rovuma, estando a menos de 100 km de Nevala, onde tinham uma guarnição de duas companhias. Em outubro o comando português estabeleceu um plano de defesa do Rovuma, criando novos destacamentos em Matchemba (900 infantes, 6 metralhadoras e 2 peças de Artilharia), em Negomano (800 infantes e 4 metralhadoras) e uma força de reserva em Chomba (1700 infantes, 16 metralhadoras e 2 baterias de Artilharia), para responder a um eventual ataque alemão. Tinha organizado também o destacamento de Nanguar (1000 infantes e 6 metralhadoras), cuja missão era estabelecer uma 2.ª linha de defesa no setor mais fácil para o inimigo chegar ao Niassa no caso de entrarem em Negomano, onde estava o major Teixeira Pinto. A força portuguesa na defesa do Rovuma tinha nesta fase cerca de 6400 infantes, estando 4400 nos principais destacamentos (Chomba, Nanguar, Matchemba e Negomano) e 2000 distribuídos pelos restantes postos de fronteira.

Nos primeiros dias de novembro de 1917 uma nova manobra ofensiva dos britânicos obrigava os alemães a retirarem em direção ao Rovuma. Nessa sequência, o comando britânico avisou os portugueses para reforçarem os postos de Mocimboa do Rovuma, Chomba e Negomano, prevendo que Von Lettow poderia retirar para território português. A entrada dos alemães acabou por acontecer no dia 25 de novembro, após o ataque ao posto de Negomano, na confluência entre o rio Rovuma e o Lugenda. O combate decorreu entre as 10 e as 15 horas, causando 228 mortos portugueses (cinco oficiais, catorze sargentos praças europeias e 208 indígenas), 70 feridos e 550 prisioneiros. A força alemã era constituída por 15 companhias, metralhadoras e alguma artilharia (300 europeus e 1700 áskáris) enquanto a guarnição portuguesa dispunha apenas de 1200 infantes (seis companhias indígenas) e de uma bateria de 6 metralhadoras.

A 2 de dezembro os alemães tomaram também o posto de Nanguar, onde se encontravam os recursos que deveriam defender toda a Linha A oeste do rio Lugenda. Daí seguiram para serra Mecula, onde uma força comandada pelo capitão Francisco Curado ainda resistiu durante uma semana, antes de retirar perante o potencial alemão, que incluía artilharia. A força portuguesa em Mecula, comandada por Francisco Curado, era constituída apenas pela 21.ª Companhia Indígena e por uma bateria de metralhadoras, não dispondo de nenhuma artilharia. A defesa dos postos na serra Mecula foi para os portugueses um dos poucos exemplos de um combate bem organizado sob o comando de dois oficiais de Infantaria, que deram bons exemplos em Moçambique: o capitão Francisco Curado e o tenente Viriato de Lacerda, que morreu neste combate e foi condecorado com a “cruz de ferro” alemã.

Quer em Negomano quer em Nanguar, os alemães aproveitaram muitos dos recursos logísticos (alimentação, armas e munições). Depois da perda da serra Mecula já não havia condições para manter a defesa nem para perseguir o inimigo. O esforço militar que tinha sido realizado desde 1914 ficou gorado e a perda destas posições acabou por ser mais um contributo para abrir caminho para a revolução de Sidónio Pais em Lisboa, no início de dezembro de 1917.Entre novembro de 1917 e setembro de 1918 os alemães tiveram forças militares dentro do território e realizaram operações até á região de Quelimane, a cerca de 1000 km a sul da fronteira. Apesar do reforço de tropas britânicas em dezembro de 1917 e em abril de 1918, os alemães permaneceram em Moçambique até final de setembro. Durante esta ofensiva (1917-1918) as tropas de Lettow usaram inovações táticas com forças ligeiras de homens nativos (askáris). As forças invasoras estavam organizadas em 15 companhias (300 europeus e 2000 indígenas de tribos askáris), com 30 metralhadoras e reduzida quantidade de artilharia.

Durante a invasão destacam-se os seguintes combates em diversas posições portuguesas:

  • - combate de Negomano, a 25 de novembro de 1917;
  • - combate na serra Mecula, de 4 a 8 de dezembro de 1917;
  • - combate de Malema, em maio de 1918;
  • - combate de Lugela, em junho de 1918;
  • - combate de Nhamacurra, de 1 a 3 de julho de 1918.

Fig17-II. Passagem do rio Rovuma por uma unidade alemã em Negomano, 25 novembro 1917. Ilustração de Carl Arriens

Em Lisboa, o novo poder de Sidónio Pais resolveu afastar o governador Álvaro de Castro, muito ligado a Afonso Costa e ao Partido Democrático, e nomeou em abril de 1918 como novo governador o tenente-coronel Pedro Massano de Amorim, que tinha sido o comandante da 1.ª Expedição a Moçambique. Entretanto, os alemães progrediram durante o mês de dezembro pelo Niassa, divididos em três destacamentos:

  • - destacamento do gen. Wahle; após afastar a tropa portuguesa da serra Mecula (8 de dezembro) segue para sudoeste acompanhando o curso do rio Chiulezi (afluente do rio Lugenda);
  • - destacamento do cap. Franz Khol; depois de Negomano integrou a coluna principal de Lettow até Nanguar e daí seguiu para sueste até à região de Medo, levando 5 companhias; esta força teve dois combates com os portugueses em Muíte, junto ao rio Lúrio;
  • - destacamento principal, comandado por Von Lettow, progrediu para sul por Metarica.

No início do ano de 1918 começaram a chegar a Porto Amélia as tropas britânicas com as quais o comando britânico planeava realizar operações de perseguição aos alemães após a estação das chuvas. Com a colaboração dos britânicos, os planos aliados previam deter a progressão dos alemães na região de Quelimane, mas os conflitos entre os comandos militares português e britânico, sobre o comando das forças conjuntas, atrasou e prejudicou a eficácia militar. As forças britânicas que desembarcaram em Porto Amélia no início de 1918 não ficaram subordinadas ao comando português, apesar de operarem em território nacional. Após algumas diligências diplomáticas, ficou definido em janeiro de 1918 que, em operações, as forças aliadas ficavam sob o comando do oficial mais graduado em cada caso; assim foi criado um comando misto, ficando o general Deventer a comandar as forças aliadas. Em abril as forças britânicas presentes em Moçambique foram reforçadas com mais unidades vindas da Rodésia e os portugueses recuavam. O objetivo era concentrar forças mais a sul para deter o inimigo, pois durante o 1.º semestre de 1918 os alemães avançaram muito para sul.

Sobre esta fase da Guerra devemos registar na história da Infantaria portuguesa a “companhia pirata”, que era a 2.ª Companhia Indígena da Beira, do alferes José Teixeira Jacinto (mobilizado pelo BI 31 do Porto), que conseguiu retirar os seus soldados dos “montes macolos” e resistir à invasão alemã. Durante quase 5 meses esta unidade esteve desaparecida para o comando português, enquanto percorria centenas de quilómetros pela selva, chegando mesmo a colaborar com os britânicos em operações de reconhecimento. O comando português admitia que aqueles homens tinham sido mortos e por isso já se ouviam histórias lendárias sobre aquela companhia, organizada no ano anterior na Beira, com nativos de Sofala, Sena e Manica e que teve o seu batismo de fogo na campanha de pacificação do Barué.

A força de Lettow continuou a progredir para sul; sabendo que na estação seca os britânicos podiam ameaçar as suas unidades, procurou abrigar-se no mato e manter-se escondido, com acampamentos afastados dos caminhos para não serem detetados, praticando uma eficaz camuflagem passiva, evitando os ruídos e luzes, mas marchando sempre com uma velocidade impressionante de 25 a 30 km por dia. No mês de abril de 1918 Lettow estava na zona de Maúa e nos meses seguintes a sua força sobrevive dentro de um grande cerco, cujo perímetro é definido pelos britânicos a nordeste e a oeste e pelos portugueses a sul, ao longo do rio Lúrio.

Lettow compreende que o cerco britânico está mais apertado e em junho começa a passar o rio Lúrio. Ataca a posição de Malema e depois a localidade de Alto Molocué, surpreendendo o comando britânico, que não tinha previsto essa possibilidade. As autoridades também estavam cada vez mais assustadas, pois os alemães tinham reunido mais recursos logísticos capturados nos postos portugueses e estavam já na região da Zambézia, a cerca de 300 km da importante vila de Quelimane.

Ofensiva alemã em Moçambique

A guarnição de Quelimane foi reforçada com um batalhão britânico e 3 companhias indígenas portuguesas. Para defender este importante centro foi guarnecida ainda a aldeia de Nhamacurra, a 50 km a noroeste, onde existia caminho de ferro, onde estavam importantes depósitos de abastecimentos e onde era a sede da Companhia Agrícola do Boror. Foram enviadas rapidamente unidades britânicas e portuguesas para Nhamacurra, onde teve lugar um dos combates mais importantes da Grande Guerra, entre 1 e 3 de julho. Enquanto as forças aliadas preparavam a posição defensiva os alemães aproximaram-se sem serem detetados e atacaram. O comando da posição em Nhamacurra era exercido por um major português, mas os britânicos promoveram o major Gore Brown a tenente-coronel para garantir que fosse este oficial britânico o comandante da operação, respeitando a norma acordada em janeiro de 1918 entre os dois governos, proposta pelos britânicos. A posição de Nhamacurra atacada pelos alemães era defendida por 5 companhias de Infantaria (3 portuguesas e 2 britânicas) num dispositivo com três setores virados para norte: o 1.º setor, a oeste (com 2 companhias portuguesas e 2 bocas de fogo de Artilharia); o 2.º setor, ao centro (com 1 companhia portuguesa); e o 3.º setor (com 2 companhias britânicas, King African Rifles).

 

O setor n.º 1 (oeste), que dispunha de 2 bocas de fogo de artilharia, foi precisamente o objetivo dos alemães. Logo no início do combate, pelas 15 horas do dia 1 de julho, as forças ligeiras alemãs atacaram a Artilharia, cuja posição foi defendida pelos artilheiros combatendo como Infantaria. Foi morto o tenente de Artilharia Ernesto Lemonde Macedo e o tenente de Artilharia Alberto Almeida Marques Osório foi feito prisioneiro e torturado juntamente com outros portugueses.

O combate decorreu até dia 3. De madrugada os alemães voltaram a atacar com intensidade e com fogos de artilharia de tarde, lançando o pânico entre os portugueses e causando 46 mortos e 56 feridos. Como consequência, tomaram a posição e apoderaram-se de muito material de guerra (10 metralhadoras, 444 espingardas e milhares de munições) e abastecimentos. Ao contrário do que receavam os aliados, os alemães depois deste sucesso não atacaram Quelimane.

Nhamacurra foi o último combate importante dos portugueses em Moçambique, com o qual terminou a campanha do coronel Sousa Rosa, que regressou a Lisboa a 7 de julho. Foi nomeado para o substituir o carismático general Gomes da Costa, regressado da França e que chegou a Moçambique em dezembro, após o final da Guerra.

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Comissão Coordenadora da Evocação do Centenário da Grande Guerra

 
 
Imagens: Arquivo Histórico Militar (fundo AHM-FE- CAVE-AG)
Fotos de equipamentos Núcleo Museológico das OGFE e do Museu Militar.
 
Textos: O CEP: Os Militares Sacrificados Pela Má Politica, Fronteira do Caos, 2016. A Nossa Artilharia na Grande Guerra (1914-1918), Caleidoscópio,2017.
 
Autores: Coordenação de Pedro Marquês de Sousa. Apoio na preparação de artigos militares OGFE e Fotos: Jorge Baltazar Pinto e André Fernandes.

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