Operações

Operações em Angola

A coluna de Alves Roçadas e os combates em Naulila

A 18 de outubro de 1914 em Huila, Alves Roçadas tomou posse como governador daquele distrito, em acumulação com as funções de comandante militar. No dia seguinte aconteceu o chamado incidente de Naulila, entre portugueses e alemães, que motivou depois os ataques alemães ao posto militar de Cuangar e aos postos administrativos de Bunja, Sâmbio, Dirico e Mucusso, ao longo do rio Cubango.

No dia 18 de outubro de 1914 uma pequena força alemã (20 homens e 32 solípedes) entrou em território português sem autorização, ultrapassando largamente os limites de fronteira e acampou perto do rio Cunene, a 13 km de Naulila. O alferes Sereno, comandante de um destacamento em Otoquero (Cuamato), foi ao encontro dos alemães com uma força de 20 homens; os alemães alegaram que estavam a perseguir um desertor e procuraram saber informações sobre a expedição que tinha chegado de Lisboa. Os dois grupos pernoitaram no mesmo local, mas no dia seguinte uma alegada atitude hostil alemã levou a que os portugueses disparassem, matando todos os alemães, com excepção de um soldado que fugiu. Os alemães retaliaram a 31 de outubro, com o ataque ao posto de Cuangar; nesta ofensiva, mataram 2 oficiais, 1 sargento, 18 praças e alguns civis. Seguiram-se ataques a diversos postos administrativos ao longo do rio Cubango.

Área de Operações em Angola, 1914

Nesta situação, após o incidente de Naulila e perante a ameaça alemã, Alves Roçadas decidiu em novembro estabelecer forças em Naulila, Dongoena e Calueque para vigiarem os vaus do rio Cunene. Foi assim enviado um destacamento para Naulila (1500 homens) e outro para Dongoena-Caloeque (cerca de 500 homens). A companhia indígena que estava em Naulila foi reforçada no dia 4 de dezembro por um destacamento com artilharia, metralhadoras e mais infantes e no dia 17 recebeu mais uma companhia. Assim, estavam em Naulila no dia 17 de dezembro, após o reforço recebido, três companhias de Infantaria (duas companhias do batalhão de Infantaria n.º 14 e a 16.ª Companhia indígena de Moçambique), uma bateria de 4 metralhadoras, 3 peças de artilharia e um pelotão de Cavalaria. Em Caloeque, uma companhia reforçada (300 infantes) com artilharia e um pelotão de Cavalaria (reduzido). Entre as duas posições, em vigilância, estava uma força de dragões (Cavalaria) sob o comando do tenente Aragão.

No dia 12 de dezembro, uma força alemã vinda de sul para norte aproximou-se da margem esquerda do rio Cunene, onde desenvolveu uma operação ofensiva de surpresa sobre Naulila, na manhã do dia 18, que durou cerca de 4 horas (entre as 5 horas e as 9 horas da manhã), acabando com a retirada dos portugueses que sofreram muitas baixas. A força alemã que se aproximou do rio Cunene no dia 12 de dezembro estava organizada em dois destacamentos: o do capitão Water, que inicialmente fez uma operação secundária de fixação, e o do major Frank, que fez o ataque principal à posição de Naulila com 490 militares de Infantaria, 150 indígenas, 6 peças de artilharia e 2 metralhadoras. O combate motivou a retirada dos portugueses de Caloeque e de Naulila para Donguena (30 km a norte) e posteriormente para o Humbe.

No desenvolvimento da operação, o destacamento do capitão Water, que progrediu junto ao rio Cunene, foi sendo vigiado pela unidade de Cavalaria, do tenente Aragão. Foi feito fogo sobre os alemães no dia 13, quando a extensa linha de auxiliares cuamatos que vigiava a frente entre Caloqueque e Oncuancua retirou por influência de um soba aliado dos alemães, que lhes forneceu informações sobre o dispositivo português em Naulila.

O destacamento do capitão Water estacionou a cerca de 2 km dos morros de Calueque, entre os dias 13 e 17, sendo observado pelos portugueses do destacamento do major Salgado. Este destacamento estava a ser fixado, enquanto a leste o destacamento do major Frank preparava o ataque principal a Naulila.

Na madrugada do dia 18 de dezembro, pelas 4h30m, estes dois destacamentos iniciam o ataque a Naulila. A força do capitão Water ataca a oeste e a do major Frank ataca a leste, sobre a estrada de Oncuancua, com artilharia e depois metralhadoras. O fogo alemão provocou o pânico na 9.ª Companhia do BI 14, causou um incêndio na posição e alguns portugueses retiraram, enquanto a Infantaria alemã avançava.

Esquema do combate de Naulila em dezembro de 1914

Alves Roçadas enviou uma ordem para que o destacamento de Caloeque viesse apoiar Naulila, mas essa ordem só chegou ao major Salgado muito tarde. Quase 4 horas depois do início do ataque, pelas 8h45m, Alves Roçadas deu ordem de retirada de Naulila para Dongoena. Morreram neste combate 69 portugueses (3 oficiais e 66 praças), 76 foram feridos e 64 ficaram prisioneiros dos alemães. Do lado alemão estima-se que morreram 12 militares e que 30 tenham ficado feridos.

Após este combate em Naulila os alemães acabaram por sair do território, mas entretanto as populações nativas da região de Humbe começaram a revoltar-se, o que deu origem às operações de pacificação do sul de Angola em 1915.

 

  • ocupação do baixo cunene
  • Ocupação do Baixo Cunene nos Cuanhamas e nos Cuamatos

    Em julho teve início a primeira operação para reocupar a região do Humbe e de Dongoena, tendo sido constituídos para o efeito dois destacamentos: o de Humbe e o de Dongoena. Ambos cumpriram a sua missão, reocupando estas regiões no início de julho. Em 18 de julho começou outra operação com o objetivo de ocupar o baixo Cunene. Para esta operação as forças foram organizadas em 4 destacamentos: o de Naulila, o de Cuamato, o de Cuanhama e o de Evale. Os destacamentos de Cuanhama e de Cuamatos, mais reforçados, travaram duros combates em agosto, em Aucongo, Inhoca e Môngua. O destacamento de Cuanhama, que travou o combate de Môngua, tinha infantes do RI 17, do batalhão da Marinha e metralhadoras e o destacamento de Cuamato participou nos combates na Chana de Mufilo, em Aucongo e Inhoca.

O Destacamento do Cuamato

A coluna que tinha a missão de reconquistar o Cuamato era comandada pelo coronel de Infantaria Veríssimo de Sousa e incluía o BI 18, uma companhia indígena de Moçambique, uma bateria de metralhadoras (8 metralhadoras), a bateria de Artilharia de Montanha (quatro peças) e dois pelotões de Cavalaria. A coluna do coronel Veríssimo de Sousa (destacamento do Cuamato) tinha a missão de reconquistar e ocupar o Cuamato.

Em agosto, no Humbe, as forças foram reorganizadas, resultando a criação de 3 colunas (destacamentos): o de Naulila, o de Cuamato e de Cuanhama.

O destacamento de Cuamato travou combates em Ancongo e na Inhaca em agosto de 1915, ocupando depois o forte de Cuamato, que era o seu objetivo. Depois ainda fez parte de uma coluna de socorro ao destacamento do Cuanhama, tendo participado a 24 de agosto no combate da Chana da Mula com os nativos. Em setembro foi organizado o destacamento de N`Giva com pessoal dos destacamentos de Cuanhama, Cuamato e Evale. Nestas operações a falta de água e as constantes marchas forçadas causaram muitas baixas e revoltas de soldados.

Zona de Operações no sul de Angola, 1915
Desenho do autor

 

 

  • Destacamento de Cuanhama
  • O Destacamento de Cuanhama

    O destacamento de Cuanhama – constituído pelo Batalhão de Marinha, pelo Batalhão de Infantaria 17, uma companhia indígena de Moçambique, quatro baterias de metralhadoras (16 metralhadoras maxim), duas baterias de Artilharia de campanha (8 peças 7,5 TR) e 2 esquadrões de Cavalaria –, era comandado pelo tenente coronel de Artilharia Pereira Caldas. Seguia nesta coluna o próprio general Pereira de Eça, que resolveu acompanhar este destacamento que tinha a missão principal de tomar a embala do soba Mandune (N`Giva).

 

O Combate de Môngua 20 de agosto de 1915

No dia 18 de agosto a força portuguesa foi atacada por cerca de 12.000 guerreiros nativos. Apesar de repelidos, voltaram a atacar nos dias seguintes. A 19 de Agosto os nativos revoltados atacaram de novo o quadrado português e foram afastados, mas a situação dos portugueses era cada vez mais difícil pelo desgaste, pela falta de água e de munições. Na manhã do dia 20 de agosto o soba Mandimba realizou um novo ataque sobre a face noroeste do quadrado onde estava o batalhão de Marinha e o batalhão de Infantaria n.º 17. Os combates decorreram entre as 7 e as 15 horas, até ser realizada uma carga à baioneta pela Infantaria da Marinha e pela Infantaria n.º 17, conseguindo afastar o inimigo definitivamente. A Artilharia na face norte do quadrado de Môngua fez mais de 2000 tiros, facto que contribuiu para o êxito da operação de defesa daquela posição.

Dispositivo em quadrado no combate de Môngua, 1915
Desenho do autor

O batalhão da Marinha no combate de Môngua
Pedro Cruz, óleo. Museu de Marinha

O destacamento de Cuamato deslocou-se em socorro da posição de Môngua, percorrendo 130 km em 50 horas. Contudo, este destacamento também tinha sido atacado violentamente a 13 de agosto na Chana do Ancongo e no dia 15 em Inhoca. Quando chegou a Môngua, as forças foram reorganizadas e os dois destacamentos (Cuamato e Cuanhama) foram dissolvidos para se criar um novo, o de N`Giva, com a missão de ocupar o Cuanhama e tomar a embala do soba Mandune (N`Giva). A posição de Môngua começou a ser fortificada e guarnecida com unidades de Infantaria, metralhadoras e uma bateria de Artilharia.

Nesta operação para atingir N`Giva foram usados camelos para o transporte de equipamentos e o destacamento ocupou a embala de N`Giva a 4 de setembro, após a fuga dos indígenas, que se passaram para território alemão (Damaralândia). Após esta operação terminaram as ações de pacificação no sul de Angola, onde os portugueses sofreram 810 mortos e 683 feridos.

 

logo

Comissão Coordenadora da Evocação do Centenário da Grande Guerra

 
 
Imagens: Arquivo Histórico Militar (fundo AHM-FE- CAVE-AG)
Fotos de equipamentos Núcleo Museológico das OGFE e do Museu Militar.
 
Textos: O CEP: Os Militares Sacrificados Pela Má Politica, Fronteira do Caos, 2016. A Nossa Artilharia na Grande Guerra (1914-1918), Caleidoscópio,2017.
 
Autores: Coordenação de Pedro Marquês de Sousa. Apoio na preparação de artigos militares OGFE e Fotos: Jorge Baltazar Pinto e André Fernandes.

Room Booking

Thanks for staying with us! Please fill out the form below and our staff will be in contact with your shortly.